20.5.10

, mas não esqueceram o que ela não conseguia lembrar: que quando é para ser, é pra ser. parece filosofia de bar, fato, mas fato também que é assim. e por que não a filosofia de bar? o lirismo dos bêbados que ela tanto ama? fantasmas assombravam seus pensamentos apaixonados, mas essas coisas acontecem sem pensar então pensamentos eram meros pensamentos e quando você nota está beijando alguém. alguém não: o menino que combinava com ela no início da estória. pelo menos isso era o que todo mundo achava e até o que eles achavam antes do primeiro beijo. beijo esquisito. poderia ter sido o último de tão ruim, mas não foi. ela comentou que não encaixava e eles foram dirigir, coisas banais e tal. ela quase bate o carro e mais alguns beijos. ele chamava ela de ‘amor’ e ela odiava, morria de medo do amor bobo, do amor quase carente, mal sabia que esse era seu fardo... eles não se suportavam mais. tudo, como o beijo, era incompatível, uma incompatibilidade que não tinha a beleza de Eduardo e Mônica. eles não se completavam, eles se torturavam tentando beijar, mas foi inútil. ele até algumas vezes resmungou bem baixinho a palavra namoro, mas ela não acreditava, não podia ser verdade. ela nunca vai saber... fingiu então que foi tão baixinho que ela não conseguiu escutar. disse, sem delongas, que o beijo não dava certo e que não poderiam ficar mais juntos. ele continuou a rotina sem ela e ela parou com a sua e sofreu, sofreu, sofreu muito por um lá, um outro lá que não vale a pena mencionar. ele já foi merecedor de muitas historinhas. daí o tempo passou e essas outras historinhas foram a grande sacada da vida dela. o tempo passou mais e ela foi experimentando bocas e mais bocas. mas daí o tempo passou mais ainda e, ah, como a vida é engraçada: deu vontade de beijo esquisito. ela não queria novas bocas, queria novos beijos! e lá foi ela tentar. ela sempre achou que quando uma pessoa pensa em outra a outra também ta pensando na primeira, mas ela tava enganada. era muito mimada para aceitar que alguém não pensava nela então sempre corria para suas fantasias. ele não pensava nela, mas ela não desistiu. ligou, entrou, parou o carro. era um lugar perigoso, mas ela não tinha medo. alguma coisa a enchia de coragem, talvez fosse vontade de beijo esquisito e ver que talvez pudessem rir daquilo. e ver que talvez pudessem rir daquilo. quando se contorna uma situação assim com humor cria-se laços, laços não de fibras, mas de perfumes. laços que não enforcam. ela nunca tinha ido ao quarto dele. olhou cada detalhe, procurava algo que denunciasse alguma fraqueza, algo para o cheque-mate. e não encontrou nada. a ausência era gritante. e nada podia ser mais perfeito. deitaram na cama que outras deitaram ao som de Pink Floyd. ela deitou nele e ele ia apresentar estrela por estrela para ela. ela queria muito, queria muito, muito ouvir, mas tinha medo de ser só mais uma e pediu para que ele pulasse essa parte. a volúpia nem era grande a ponto de. ela sabia a importância da troca, sabia a importância de deitar no colo e contar estrelas, mas tinha medo, muito medo, então se defendia, não queria se render ao que todas se renderam. mas sem saber se rendeu e alí deixou que a tocasse como nunca. mas ainda assim tinha que controlar e nunca contaria que era sua primeira noite assim. nunca. voltou para casa e chorou muito, sentia muita dor e queria um abraço. ninguém para conversar. era muita dor. passava da carne para algum lugar e ia doendo. ela fingia que tava tudo bem, nunca imaginou que roupas espalhadas pelo chão significassem tanto, tanto. um bocado mais que ‘roupas espalhadas pelo chão’ e esporte. ela disse para ele que se um dia estivesse gostando ele não ia saber, mas ele ia. o que ela não sabia é que isso não muda nada. se ela soubesse teria contado antes. ou não teria contado. passou mais tempo e parece que um pedaçinho dela ta lá com ele. um pedaçinho pequenino, ela quer de volta, mas ele foge, sai correndo. ela vai atrás. entram num labirinto. ou melhor, ela entra. ele só fica rindo, inflando o ego, olhando ela se embolar nas próprias fitas que ele recusou. fazer nós. laços sem beleza. laços que, sim, enforcam. ela corria atrás de um pedaço e ia perdendo outros. já não sabia mais se valia a pena correr atrás de uma parte enquanto está perdendo todas. enquanto já se perdeu inteira. ela não sabe mais porque corre e nem ele porque foge. mas ela só queria que ele soubesse... e agora ele sabe. e continua tudo igual como se nada tivesse acontecido. ele vai fazer shows e ela não dança com seu All Star detonado. ela só queria que esse amor, ou qualquer coisa que seja, tivesse a beleza das flores sem perfume, a inocência de Eduardo e Mônica. e quer saber? tem. quem um dia irá dizer que existe razão para as coisas feitas pelo coração? e quem irá dizer que não existe razão? ninguém vai. e isso não vai passar de palavra escrita em papel, frase desconexa, bilhete esquecido dentro daquele último livro empoeirado da última prateleira empoeirada. e ela nem sabe mais porque escreveu essa carta, mas sabe que nada é tão ruim a ponto de não ser dito. acende um cigarro, dá um sorrisinho e sai da sala escondendo, não sei de quem, seus olhinhos pretinhos uma útima vez molhados de sal.

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