20.5.10

eu sei que é cedo. um bocado cedo. muito, muito cedo na verdade, mas é bom já ter o que falar tão cedo... falar. queria falar tanta coisa... e se não fosse o medo de discar teu número, falaria. se não fosse o medo de pegar o ônibus e fazer você sentar e me ouvir, falaria. se não fosse o medo de talvez você não querer ouvir, falaria. mas por medo e mais muitos motivos prefiro as palavras do papel. mas não me cansaria de olhar nos teus olhos e falar. não me cansaria dos teus lábios de álcool e de ouvir. não me cansaria nunca. e se cansasse ia falar besteiras enquanto tentava me manter acordada. ou eu frouxa de rir de ver você sonhando enquanto dormia no meu colo. você não sabe disso, mas você se mexia engraçadissimamente enquanto dormia aquele dia beira-mar. você me disse teu nome e logo seus amigos vieram desmentir. não importa eu ia confundir mesmo assim. você nem sequer lembrava o meu. alias, sua memória sempre falhava. eles me chamaram de cobra e você bem que tentou me fazer entender, mas acho melhor mesmo ficar subentendido. no fim eramos os noivos. e é isso tudo o que sei. que você é o Guno e não Bruno e que eu acho sua cara Ricardo. Ricardão. Risos. queria ter passado tempos com você. muito tempo. saber de cada detalhe, de casa historiazinha. de cada pedacinho da sua vida, de você. mas só sei de um tico, um tico que ficou esquecido naquele banco da praça. e se alguém achar esse restinho de carinho tomare que use bem. alguém de algum festival futuro. quem dera seja um casal. um casal que possa dizer "nossa, você é de Dromélia? como nunca nos batemos por lá?". e que eles saibam o limite, para não anarquizarem numa praça onde venhinhos vão rezar. mas não tem perigo... acho que essa parte do amorzinho eu trouxe comigo. até porque essa parte ficou inacabada. não queria correr o risco de perder isso por ai. seria um perigo sentimento fértil, nada ágape, perdido num banco. seria um perigo criançinhas de nossa vontade por ai. mas um dia a gente vai continuar de onde paramos. mesmo que o tempo tenha passado tanto a ponto de precisarmos de ajuda de bengala . uau! que coisa linda isso: um amor de bengala. amorzinho de bengala. ta, eu to exagerando. foi só uma paixão de estação, boba e tatal. eu só quis vc para aquecer meus pés do frio de Antonina. e ah, eu é que acabei tendo que te abraçar, te aquecer. até a hora que, fontanados e sonolentos, não sabiamos mais quem abraçava quem. era um abraço só, somente. agora é cobertor só, sozinho. às vezes eu choro baixinho, porque se eu choro baixinho você não escuta. e eu não quero que você se preocupe. mas se eu choro alto você também não escuta. e mesmo que eu grite você não vai escutar. então, se eu falar você nunca vai saber. por isso escrevo. mesmo que isso implique em talvez nunca mais poder vomitar palavras enquanto você só ri. ri de mim. ri para mim. ri por mim. boca na boca, rindo em mim. mesmo que isso não me de certeza alguma. mesmo que eu nunca mais sinta a certeza de quando te vi entrar no cabaré. nem alguma certeza. eu só queria que você soubesse. e agora sabe. que bom que vc apareceu, a vida não podia ter passado sem. e agora sim -com certeza- entender que não foi bobo você dizer que ia sentir falta. era tudo o que eu queria ter dito e não pude. e sentir que, mesmo morrendo de medo, espero de verdade que eu possa entender mais uma vez que o festival pode ser um bocado mais que suco de frutinha gummy.

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