eu odeio você. eu odeio você porque você ainda é referência. como alguém tão pequeno pode ser tão grande, me diz? me diz me diz porque quero saber. eu lembro de você, das coisas lindas que escrevi, das coisas feias também e que fazem tão parte e se tornam tão lindas, e fico, assim, imaginando como coisas lindas são tão suas? como pude tentar sentimentos sem nunca ter me olhado nos olhos? como pude me dar tanto? como pude? para alguém que nunca deve ter entendido nem um tico do que queria passar, do que queria sentir. vai ver é por isso que ainda leio e sinto tanto: você não quis nada, não levou nada com você. como, ainda por cima, pude ver? como pude ver? como pude acreditar que você gostou sim, que você sempre lia e relia como eu fazia toda noite? como pude acreditar que você me queria como eu queria? eu odeio você porque quando estou andando pelas ruas toca aquela música daquela banda. eu nem sei pronunciar o nome dela, mas tenho certeza que se tentasse você ia frouxo de rir consertar minha pronúncia enquanto eu concertava com o violão pra você, só pra você. às vezes me surpreendo com a capacidade que tive de achar que estava enxergando o mundo, respirando todo o ar do mundo, enquando na verdade estava perdendo o ar, te sufocando. ah, meu bem, desculpa, não queria ter te sufocado, queria ter esperado que o tempo colocasse as coisas em ordem, mas eu tinha tanta urgência de você, eu acreditava tanto, que não pude te escutar gritar. e agora, você me escuta gritar? você, ah, você sempre me deixando respirar o mundo, colocando carbono no ar. tudo isso, assim, tão calculado. tão calculado quanto o ar que achava que não caberia em conta alguma de tão imenso, de tão cheiroso. eu voava e me sentia como se fosse amor. você não falava nada e eu achava "que tímido", afinal, você também sentia o amor, não é, amor? como eu pude sentir sozinha? não tem como passar por mim e não por você: era uma só coisa. será que não pude te passar, dividir com você? será que fui egoísta e quis só pra mim? será que fui tão, tão assim que não pude ver? o que está errado com o ar? o que está errado com? e sempre que ando pelas ruas e toca aquela música daquela banda que não sei pronunciar o nome eu lembro de você e, aí sim, vejo como tudo é tão artificial, quase de proveta. eu lembro que um dia você cantou aquela parte que diz que as pessoas mais solitárias são as que sempre dizem a verdade -ou talvez isso tenha sido fruto da minha imaginação e da minha tradução porca, do meu inglês porco, mas, veja bem, o inglês é meu, eu falo dele como quiser, você não pode não, não pode não. eu não admito que pense assim dele, no entando, como infernais fantasmas, penso aqui comigo que era exatamente o que você devia pensar quando eu cantava aquelas músicas. enquanto respirava todo o ar do mundo. eu respirava o ar do mundo e cantava pra você enquanto você pensava na porquice do meu inglês. ei, cara, você que é porco idiota, como poderia pensar nisso enquanto eu delicadamente respirava o ar do universo pra te presentear com notas? estava quase morrendo sem ar enquanto você roubava e roubava mais ar com beijos. o engraçado é ver que eu acreditava tanto que era troca e não roubo, que era estalo e não saliva. e sempre que escuto pelas ruas que as pessoas mais solitárias são as que sempre falam a verdade eu penso em como sou idiota por ainda suspirar por você e acreditar que ainda um dia vou por a seta pra direita na rua tantofaz -direção da sua casa. e penso também que essa não é com certeza a banda da minha vida, porque você não quis ser o homem da minha vida e porque ela mente: as pessoas mais solitárias não são as que sempre falam a verdade. as pessoa mais solitárias são as que fingem, que roubam ar, que respiram por aí enquanto outros se afogam. as pessoas que falam a verdade só se preenchem do que simplesmente sentem, do ar que não é de ninguém. do ar que vem das árvores e que vira música, mesmo que anti-musical, que não-sonoro. são essas pessoas que nunca estão sozinhas, porque elas têm, elas se têm. é tudo delas.
20.5.10
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