27.5.10

coisas sobre o verde: fazer a casa verde, o fusca verde, a terra verde, os meninos verdes; coisas pra dar e vender: gatinhos chá incenso elis prosa velas; coisas para se dizer: senti saudades do seu abracinho carinhoso, o cheiro de shampoo e seus perfumes. no final das contas acho que é o cheiro da sua pele que me encanta e que se transforma neste perfume mental. corpo; amálgama: e o sonho do sossego, do campo, das viagens, do bosque, da montanha, do friozinho e do café e chá quentes após um dia gostoso, nos conhecendo, descobrindo o som de um riacho, sentindo o vento e o finalzinho de sol; coisas para se desejar: tava afim mesmo é de botar pra quebrar num sítio, cachoeira, meninos, uma vendinha, tintilhar dos pratos de alumínio, água da bica, e você de vestido verde, pois, você sabe, teu vestido porque é teu não é de cetim nem chita, é de sermos tu e eu e de tu seres bonita. coisas para se procurar no dicionário francês-português: panela de pressão, eco, fêmea, felino e feitiço. i put a spell on you e você me fez jouir d´un bonheur sans nuage, me fez nager dans le bonheur. e em outra língua eu posso dizer sem vergonha tudo o que minha língua já bagatelleou com você, para você, em você. sim, sim, it´s a sin.
aqui a chuva vai cair e quero sair antes disso para não dirigir na chuva. mesmo. se antes disse que estava tranquila, digo que ainda estou. tranquila como um amor que nem o nosso deveria me deixar e deixa, porém, hoje, também sinto uma vontade mais que incontrolável de um beijo molhado de maracujá. se você estivesse comigo com certeza sugereria um banho de chuva, alguns beijos e algumas entrelaçadas na perna de louça da moça, mas, como não está, fico me guardando pra quando o carnaval chegar, pra quando você chegar e nos esbaldarmos de hamburguer´s coxinha de frango com catupiry enrolado de salsisha fanta uva morna e, é lógico, de um banho de chuva. chuva que acabou de começar a cair e me deixar mais nostálgica do que nunca.
costumava fazer acontecer no meu dia-a-dia todas as coisas que amo, como um pic nic, um pouso estrelar, ou um beijo melado.
ontem não tocou shine on you crazy diamond mas tocou lucy in the sky with diamonds e logo logo lembrei de você. lembrei do teu cheiro de moço, lembrei de quando você grita alto deixa eu ver a moça e da nossa vida na cidade que de noite tem céu de diamantes. da nossa vida na cidade que de noite tem céu e de dia amantes. na cidade onde a tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. lembrei também das pernas de louça da moça brancas pretas amarelas. pra que tanta perna, meu deus? pergunta meu coração. porém meu olhos não perguntam nada. o homem por trás do bigode é sério simples e forte. tem poucos, raros amigos o homem por trás dos óculos e do bigode. e eu sei que eu não devia te dizer que a lua de ontem, que o conhaque de ontem me botaram comovido como o diabo enquanto não tocava shine on you crazy diamond, mas eu estava mais pra lá que lucy in the sky with diamonds lembrando lembrando de quando de quando me deu a rosa pequenina e vi que és um homem lindo e que se acaso a sina desse certo... e deu, né? e quando eu penso, eu penso que existir se destina a isso: a aprender que sofrer não é amar demais.
idiossincrasia também como símbolo idiossincrásico pode significar alguma coisa para uma pessoa em particular, como uma madeira símbolo de matança de verde em série ou símbolo do sacramento de um cavaleiro, de um lenhador. e várias cognições de nós dois, é o que queria dizer. cognições? coisas que em si não têm significado nenhum: pra mim significado nenhum, nem para ele, que é você; mas para dois têm todo o significado. de uma noite que virou vida que virou noites que gera vida que vive a vida e viva a vida até morrer. e, assim, essas coisas viram coisa só que passam a ter significado único, sem acento circunflexo.

sou sua.

21.5.10

(encontrei esse bilhetinho dentro de um livro do schiele na minha casinha)
e nesta manhã veio então a vontade de escrever. não de escrever qualquer bobagem, e sim sobre o que eu ouvi. sobre o que eu li, e o que eu vi. ah, o que eu vi com uma lupa, um caleidoscópio até. e daí redescobri meu amor "like a rolling stone", em cada objeto culturalmente empilhado e amorosamente empoeirado. às gretas. aos sulcos. a música está em toda parte. viva o amor. o meu amor. ao meu amor.
que eu não sei de nada - você vive para me dizer. mas eu é que vou te dizer verdade e te contar que quem não sabe de nada é você que diz. você não sabe das coisas que morrem em mim antes que sejam ditas. muito menos das coisas que vivo para dizer, ou por dizer. eu resolvi então te contar da saudade que você não sabe que senti e dos suspiros que ando dando por aí.
sabe o que é mais estranho em tudo isso? é que conhecer uma pessoa é alimentar decepção. é saber a não saber. saber que o que sabe já foi; descobrir que o que sabia não é; não é mais; nunca foi; nunca mais será. e apesar disso ou de qualquer outra coisa, conhecer uma pessoa especial não é ecoar o passado, é antes o inverso: urgente como pernas que se encontram pela primeira vez, terno como não saber quem sagura a mão de quem, amável e possível igual a tudo na vida.

20.5.10

hoje as coisas aqui estão bem tensas. talvez você nem saiba onde diabos seja "aqui". e é assim, tão assim, que as coisas acontecem entre dois. é tão assim que sinto. e sinto muito. distante como se fizesse tão e não parte. como se de dois só pudesse esperar nada. ou como um abraço gêmeo que voa longe como pipa em campo. que voa longe com o vento. e vai fugindo, voando, tão leve, tão pássaro. continua fugindo, rodopia e rodopia. e frouxa de rir, sem saber até que ponto vou agüentar, sem saber quando vai chegar a hora de cair na grama macia, cheira de ternura e rir e rir e rir e rir e rir, vou correndo. e depois de tanto, noto a pipa caindo, mansinha como o vento, silenciosa e branda como bruma, beirar a rodovia. olho para os lados e vejo que estou sozinha e de repente, como quem acaba de perceber uma formiga no meio do calçadão, percebo o meu riso fazer-se pranto. abraço o chão, a terra e qualquer coisa que possa relar, pegar, qualquer coisa sólida que me faça acreditar viva. qualquer coisa que sinta tocar minha pele e que me faça saber que ainda tenho sistema nervoso e tato. noto a nostalgia da grama verde, tão verde, que reflete o sol, que quase reflete a lua. tão, mas tão verde que chega a ser densa, tensa, suspensa. quase preto-e-branco, tons de cinza. e da calma fez-se o vento e da urgência um furacão. me dá sua mão, meu amor. não tenha medo não –eu disse fingindo que não tenho- vem olhar o mundo aqui fora, olha como a grama é verde, tão verdinha, tão sua. joga seu corpo no mundo, vai sendo como pode, te amo em cada canto seu. me da sua mão, pô! e assim, sem saber quem deu a mão pra quem, a gente foi andando, tocados lá dentro pela vida preto-e-branco que vira cor passo a passo –como filme bobo numa tarde com pipoca.

eu velhinha vestida com rugas. um amor de bengala que insiste. netinhos correndo pela casa –um retrato que não existe. então se não existe, invento. sento no banquinho alto com dificuldade para equilibrar por causa da artrite. posiciono o cavalete e pinto. vou pintando, cantando e pintando e cantando. como fotografias instantâneas da felicidade, lembro de como era, sem talvez nem ter sido. e mesmo que tenha soltado a minha mão eu ainda seguro a sua. mexo nos seus dedos como sei que bem gosta, me apegando a cada picuinha, decorando cada detalhezinho. aprendendo de cor, com o coração. decoro os dedos com coisinhas artesanais, com anéis de mentirinha e continuo correndo atrás da pipa, correndo, correndo. vou perdendo parte de mim, sem saber se vale, sem saber se devo, sem saber. vou correndo e me jogando na vida, enquanto perco partes de mim, enquanto já me perdi inteira. e continuo correndo sem saber porque corro. e a vida, e a pipa, sem saber porque fogem. e de repente de um quadro, de um retrato, de um momento imóvel fez-se o drama. e das mãos empalmadas fez-se o espanto –como o susto de línguas que se encontram pela primeira vez. e que se encontraram pela última.

e de repente, não mais que de repente das bocas unidas fez-se a espuma e quase o vômito.
converso comigo antes que me esqueca. acordo de manhã e fico passando cremes e cremes e loções e loções e pastas e pastas. olho isso aqui, olho aquilo acolá, me reconheco no espelho que me faz gêmea. olho meu seio e levanto-os com as mãos sonhando uma plástica. olho de costas e quem sabe uma lipo. aqui dentro sei que não vou fazer, não vou fazer. quero acreditar que cada idade tem sua beleza e que eu posso doar tal dinheiro para um elefante orfão em Bombaim e isso sim é coisa bacana. e, poxa vida, envelhecer não pode ser tão ruim assim. o joelho continua sendo seu, o seio continua sendo seu e as rugas passam a ser suas. o joelho continua sendo eu, o seio continua sendo eu e as rugas passam a ser eu. o corpo não é meu, é eu, sou eu. se você tem um pai ou mãe médico é só ir até a estante e procurar um livro de anatomia. agora me diz, me diz, me diz que quero saber: onde está a mente? você pode me dizer com exata precisão onde está o encéfalo, a caixa encefálica, o crânio, o cerebelo -eu cerebelo- mas não pode me dizer não onde diabos a mente se esconde. e os sentimentos o que são? são meus, são eu, sou eu. e como ir no hospital e fazer o eu seio comer silicone até quase vomitar? como ir na clínica e deixar que tirem um pedaço de você, do seu eu nádegas? o engraçado é saber que vou te encontrar daqui 50 anos e ainda vou saber que é você, que é você. que o olho é você, que sua mente é você, que seu sentimento é você. talvez não lembre seu nome, mas nunca esquecerei um traço. uma pessoa com rosto e sem nome.

-pois é, é assim que é...
estávamos discutindo no clube. algo sobre a existência e algum sentido, algo sobre o caminho e algumas flechas. algo sobre como me sinto amputada de alguma percepção. algo que me falta e que me toca lá dentro, lá dentro. você pode dar 6 palitos para alguém e pedir que com eles constrúa 4 triângulos equiláteros. a solução consta em algo 3D. mas não, estamos presos só no aqui. no agora. e se você não existe aqui e agora, talvez você não exista além da minha mente. você não está aqui e nem agora. o que existe é só o aqui e agora, não? e quem pode dizer que sonhos não são aqui e agora? ou talvez lá e ontem? que quando eu sonho, talvez você sonhe. e sou sonho, você é sonho e quem sabe nos encontramos e jogamos aquela sinuca com a alma ou seja lá como for. né? talvez queira me apegar nisso porque você aí, tãããão longe... quero acreditar que esses malditos filmes fantasmas que não me descansam têm a ver com algo real. afinal, se saiu de mim, é eu. meu sonho sou eu. quero muito tanto um bocado saber se sonhou, se ainda sonha. saber se também esteve lá naquela rua, olhando a sombra dos galhos de outono no asfalto, aquela que certa vez comentamos gemeamente. saber se se estivesse aqui na região, iria gostar da conversa de ontem como gostei, se iria pegar mototáxi quantas vezes fosse necessário e se iria ajeitar minhas mantas na mochila enquanto eu chorava bobeiras. se ia olhar nos meus olhos e ver poesia, como sempre grito e você não escuta. saber se daqui 50 ou 5 anos, quando tudo reacontecer, se você vai me dizer seu nome e se vai perguntar o meu.

e você nem imagina, mas me inscrevo em todas promoções possíveis para ganhar uma viagem para ver algum pop show pela américa. e juro que toda noite torco para ter sorte suficiente.
eu odeio você. eu odeio você porque você ainda é referência. como alguém tão pequeno pode ser tão grande, me diz? me diz me diz porque quero saber. eu lembro de você, das coisas lindas que escrevi, das coisas feias também e que fazem tão parte e se tornam tão lindas, e fico, assim, imaginando como coisas lindas são tão suas? como pude tentar sentimentos sem nunca ter me olhado nos olhos? como pude me dar tanto? como pude? para alguém que nunca deve ter entendido nem um tico do que queria passar, do que queria sentir. vai ver é por isso que ainda leio e sinto tanto: você não quis nada, não levou nada com você. como, ainda por cima, pude ver? como pude ver? como pude acreditar que você gostou sim, que você sempre lia e relia como eu fazia toda noite? como pude acreditar que você me queria como eu queria? eu odeio você porque quando estou andando pelas ruas toca aquela música daquela banda. eu nem sei pronunciar o nome dela, mas tenho certeza que se tentasse você ia frouxo de rir consertar minha pronúncia enquanto eu concertava com o violão pra você, só pra você. às vezes me surpreendo com a capacidade que tive de achar que estava enxergando o mundo, respirando todo o ar do mundo, enquando na verdade estava perdendo o ar, te sufocando. ah, meu bem, desculpa, não queria ter te sufocado, queria ter esperado que o tempo colocasse as coisas em ordem, mas eu tinha tanta urgência de você, eu acreditava tanto, que não pude te escutar gritar. e agora, você me escuta gritar? você, ah, você sempre me deixando respirar o mundo, colocando carbono no ar. tudo isso, assim, tão calculado. tão calculado quanto o ar que achava que não caberia em conta alguma de tão imenso, de tão cheiroso. eu voava e me sentia como se fosse amor. você não falava nada e eu achava "que tímido", afinal, você também sentia o amor, não é, amor? como eu pude sentir sozinha? não tem como passar por mim e não por você: era uma só coisa. será que não pude te passar, dividir com você? será que fui egoísta e quis só pra mim? será que fui tão, tão assim que não pude ver? o que está errado com o ar? o que está errado com? e sempre que ando pelas ruas e toca aquela música daquela banda que não sei pronunciar o nome eu lembro de você e, aí sim, vejo como tudo é tão artificial, quase de proveta. eu lembro que um dia você cantou aquela parte que diz que as pessoas mais solitárias são as que sempre dizem a verdade -ou talvez isso tenha sido fruto da minha imaginação e da minha tradução porca, do meu inglês porco, mas, veja bem, o inglês é meu, eu falo dele como quiser, você não pode não, não pode não. eu não admito que pense assim dele, no entando, como infernais fantasmas, penso aqui comigo que era exatamente o que você devia pensar quando eu cantava aquelas músicas. enquanto respirava todo o ar do mundo. eu respirava o ar do mundo e cantava pra você enquanto você pensava na porquice do meu inglês. ei, cara, você que é porco idiota, como poderia pensar nisso enquanto eu delicadamente respirava o ar do universo pra te presentear com notas? estava quase morrendo sem ar enquanto você roubava e roubava mais ar com beijos. o engraçado é ver que eu acreditava tanto que era troca e não roubo, que era estalo e não saliva. e sempre que escuto pelas ruas que as pessoas mais solitárias são as que sempre falam a verdade eu penso em como sou idiota por ainda suspirar por você e acreditar que ainda um dia vou por a seta pra direita na rua tantofaz -direção da sua casa. e penso também que essa não é com certeza a banda da minha vida, porque você não quis ser o homem da minha vida e porque ela mente: as pessoas mais solitárias não são as que sempre falam a verdade. as pessoa mais solitárias são as que fingem, que roubam ar, que respiram por aí enquanto outros se afogam. as pessoas que falam a verdade só se preenchem do que simplesmente sentem, do ar que não é de ninguém. do ar que vem das árvores e que vira música, mesmo que anti-musical, que não-sonoro. são essas pessoas que nunca estão sozinhas, porque elas têm, elas se têm. é tudo delas.
telenovelamexicana. dois meses depois que tudo começou eu escrevi dizendo o quanto valia a pena. eu tinha tanta certeza daquilo, eu acreditava em cada palavra. era tudo o que eu tinha, o que me fazia sorrir: sentar, escrever, sonhar, sonhar, letras, música. sentar de novo, escrever mais uma vez, sentir por todos os dias, e nunca acordar do sonho. valeu a pena. hoje não faço idéia do que isso tudo significa para mim. de repente as letras formam outras palavras, os sonhos só vêm e vêem a noite e gritos anti-musicais. respeito tudo isso quase religiosamente. foi um ciclo, foi o ciclo. de um quadrado sem uma das arestas que definitivamente o fim não foi o começo, até porque nem se sabe qual fim foi. algo como uma linha alternativa de algum cineasta maluco. um filme caseiro. que nunca foi produzido, que distribuidora nenhuma quis veicular. que está empoeirado na última prateleira empoeirada de algum lugar. um filme de trajetória não-linear [como o quadrado sem aresta]. já quis muito, muito fazer esse quadrado virar um hexaoctagomilexagono. sem fim. até a vida me embalar até o infinito e por lá eu ficar até tudo perder sentido. até. esse filme película 35mm tinha uma trilha sonora de embargar a voz, de levar para onde eu queria ir. era tudo o que queria: cozinha quadriculada, cerveja quase vencida, geladeira azul calcinha, cefé preto frio, carro com lataria velha e estofado de couro, bitucas pelo chão, televisão com o mesmo botão on/off e volume. vitrola, vinil, jazz e pérolas. eu queria uma vida preto-e-branco. acreditei tanto, tanto, um bocado. agora palavra-cruzada. colorindo, pintando. e o vermelho não é sangue. que bom... filme alternativo nenhum de cineasta maluco nenhum tem o óbvio fim. e é esse meu ritmo: o glamour da dor, da incerteza, do anti-lugar-comum. que leva para o infinito infinito infinito finitoin infinito infinito infinito infinito toinfini nifinito innifito infinito infinito. toinfinis homens. innifitos mulheres. nifinitos possibilidades. finitoin corpos no meu. e ainda te quis matematicamente 365 dias X 24 horas/dia do ano. e o porquê disso é o que faz as pessoas sairem do sala retrô do cine com tour descolorindo para colorir de novo. é o ñãõ-sei-o-que que me fez acreditar tanto e parar o tempo num sonho pitoresco. é esse ñãõ-sei-o-que que sopra pó mágico para assistir - sozinha- mais uma vez o filme e sair do cine com tour escondendo, não sei de quem, meus olhinhos pretinhos molhados de sal e dizer para o pipoqueiro velhinho de boina molhada de garoa ‘até mais’. e continuo rodando, rodando, rodando para segurar as lágrimas desse choro inevitável. até que alguém me ponha no chão. até.

e é assim, escrevendo, que as coisas que morrem em mim antes que eu diga são ditas. bentidas palavras com infinitas combinações...
eu to escrevendo essa carta ou qualquer coisa que seja com o coração na mão e sem saber, sem pensar. só sentindo, como eu sempre fiz. a gente se conhece , eu sei. já tivemos momentos íntimos e outros nem tanto. mas sempre que penso sobre fico sem saber se tudo foi só 'roupa espalhada pelo chão' e esporte. fantasmas assombram meus pensamentos quase-assumidamente-apaixonados, mas fantasma me lembra papai com lençol assustando filhinha e lençol me lembra sono. então me perco neles e acabo dormindo sem pensar muito. mas alguma coisa, que não sei o que, tem levado pensamentos embora e pintado você todos os dias. quando eu deito aconchegada lembro da sua carinha feliz, lembro como você sabe da importância de certas coisas, como sabe quão lindo é contar estrelas e ouvir motetos e como é seu silêncio quando me ouve cantar naquela fita velha de quando eu tinha poucos anos e poucos irmãos. lembro de como seu olhinho brilha quando você fala da sua irmazinha e como você é sincero quanto ao sabor do bolo. quando quentinha e aconchegada lembro de tardes deitadas e você frouxo de rir da minha bobeira. quando lembro disso dou risada baixinho, mas eu prometo que são risadinhas baixinhas mesmo, não se preocupe. mas parece que mesmo rindo alto, gargalhadas, gritos musicais ou qualquer outra manifestação sonora, você parece não notar. e isso me mata por dentro. me mata surdamente. e se eu não tivesse com muita, muita, mas muita vontade mesmo de te falar tudo isso, você nunca ia saber. e é ai que tudo vira uma grande bagunça - pelo menos para mim. risadas são coisas boas, não são? bolha-de-sabão me faz rir, chiclés e pirús me fazem rir. balão, pipa, língua de sogra, guarda-chuva, borboleta, pitanga, amora, purpurina e bambolê. então porque diabos eu acho que vou te incomodar se rir mais alto? eu sei qual queria que fosse a sua resposta. mas sei também que saber isso é saber nada. saber mais nada. igual sei sobre qualquer outra coisa sobre: nada. mentira. eu sei algumas coisas sim. sei que, desde aquele carnaval, cada vez, cada umazinha que a gente ficou junto era como se eu te amasse cada segundo desse tempo. eu entendo como as coisas foram, eu participei delas. mas é que um dia desses, misturando devaneios, lençóis e confetes, me apaixonei. e eu sei que você sabe, que sempre soube. e apesar disso ou de qualquer outra coisa agora sim você pode dizer que me sabe. me sabe mais que nua.
eu sei que é cedo. um bocado cedo. muito, muito cedo na verdade, mas é bom já ter o que falar tão cedo... falar. queria falar tanta coisa... e se não fosse o medo de discar teu número, falaria. se não fosse o medo de pegar o ônibus e fazer você sentar e me ouvir, falaria. se não fosse o medo de talvez você não querer ouvir, falaria. mas por medo e mais muitos motivos prefiro as palavras do papel. mas não me cansaria de olhar nos teus olhos e falar. não me cansaria dos teus lábios de álcool e de ouvir. não me cansaria nunca. e se cansasse ia falar besteiras enquanto tentava me manter acordada. ou eu frouxa de rir de ver você sonhando enquanto dormia no meu colo. você não sabe disso, mas você se mexia engraçadissimamente enquanto dormia aquele dia beira-mar. você me disse teu nome e logo seus amigos vieram desmentir. não importa eu ia confundir mesmo assim. você nem sequer lembrava o meu. alias, sua memória sempre falhava. eles me chamaram de cobra e você bem que tentou me fazer entender, mas acho melhor mesmo ficar subentendido. no fim eramos os noivos. e é isso tudo o que sei. que você é o Guno e não Bruno e que eu acho sua cara Ricardo. Ricardão. Risos. queria ter passado tempos com você. muito tempo. saber de cada detalhe, de casa historiazinha. de cada pedacinho da sua vida, de você. mas só sei de um tico, um tico que ficou esquecido naquele banco da praça. e se alguém achar esse restinho de carinho tomare que use bem. alguém de algum festival futuro. quem dera seja um casal. um casal que possa dizer "nossa, você é de Dromélia? como nunca nos batemos por lá?". e que eles saibam o limite, para não anarquizarem numa praça onde venhinhos vão rezar. mas não tem perigo... acho que essa parte do amorzinho eu trouxe comigo. até porque essa parte ficou inacabada. não queria correr o risco de perder isso por ai. seria um perigo sentimento fértil, nada ágape, perdido num banco. seria um perigo criançinhas de nossa vontade por ai. mas um dia a gente vai continuar de onde paramos. mesmo que o tempo tenha passado tanto a ponto de precisarmos de ajuda de bengala . uau! que coisa linda isso: um amor de bengala. amorzinho de bengala. ta, eu to exagerando. foi só uma paixão de estação, boba e tatal. eu só quis vc para aquecer meus pés do frio de Antonina. e ah, eu é que acabei tendo que te abraçar, te aquecer. até a hora que, fontanados e sonolentos, não sabiamos mais quem abraçava quem. era um abraço só, somente. agora é cobertor só, sozinho. às vezes eu choro baixinho, porque se eu choro baixinho você não escuta. e eu não quero que você se preocupe. mas se eu choro alto você também não escuta. e mesmo que eu grite você não vai escutar. então, se eu falar você nunca vai saber. por isso escrevo. mesmo que isso implique em talvez nunca mais poder vomitar palavras enquanto você só ri. ri de mim. ri para mim. ri por mim. boca na boca, rindo em mim. mesmo que isso não me de certeza alguma. mesmo que eu nunca mais sinta a certeza de quando te vi entrar no cabaré. nem alguma certeza. eu só queria que você soubesse. e agora sabe. que bom que vc apareceu, a vida não podia ter passado sem. e agora sim -com certeza- entender que não foi bobo você dizer que ia sentir falta. era tudo o que eu queria ter dito e não pude. e sentir que, mesmo morrendo de medo, espero de verdade que eu possa entender mais uma vez que o festival pode ser um bocado mais que suco de frutinha gummy.
- homens? vixe, faz tempo...

pois é, homens... não há mulher, irmão, que goste dessa vida. ela pega o copo firme como quem sabe o que diz. pensa em adicionar que a partir de só seria das mulheres. lindas monalisas. mas uma listra não deixa. é, algo que uma listra atrapalhe talvez não seja algo a ponto de. eram listras médias horizontais que combinavam com seu tipo físico. sempre achei listras bonitas, até posso usar as verticais -que alongam- mas queria mesmo as deitadinhas. ela olha o menino zebra e pensa que foi bom não ter anunciado sua nova opção sensual. o mundo é muito preconceituoso, isso é algo realmente pessoal e, ah, essas listras... ela precisa reagir, não se entregar assim, como quem nada quer. mas não.


- hey, quem é o? - o é um calouro.

além de listras, cênicas. um calouro de cênicas.

- poxa, um broto.
- vixe, cai fora. o recém terminou um namoro longo.


hum, interessante. já sei algo sobre o zebrado. e deu zebra. nem precisa pedir que caio fora. já amei, sei bem como é, sabe? é menina, não há ninguém capaz de ser isso que você quer. então ela volta pro plano A. e madonnas, monalisas, barra limpa, luta vã, jardim, flores, borboletas. fotos, cabelo molhado e violão. elefantinho, los barbudos, los barbudos e the clash. espuma, lençóis e beijinho de hortelã. tava bom demais e mais um pouco. mas não tem mistério não, é só seu coração que não a deixa amar. não é pra ela esse lance de mona. e ela foi pra festa e entendeu um protótipo de orgia. e da orgia foi pro inferno e lá estava: o, palhacinho na multidão. de nariz vermelho e tudo. nesse tempo já tinham até trocado idéia... ela até sabia o nome dele! e acredita que ele estava de listra de novo? pois é, estava. listras coloridas, bem bonitas. sabe, essa festa tava muito cheia. dizem até que um pessoal de longe, beeeem longe veio para ver. então ele pegou na mão dela, assim ninguém se perde. idéia boa, não? foi daquele jeito, sabe? um jeito que nunca mais... mas naquele, só naquele dia não soltou. no meio daqueles corpos blécat, mãos dadas. até que não sabiam mais quem segurava a mão de quem. ele é calado, ela sabe, mas sua mão e seus olhinhos de estrelinha falam bastante. um presentinho mesmo. difícil saber o que isso significa no jeito Kalakaua de ser. jeito que cala, que faz calos. kahlo, é isso! Frida Kahlo! ele parece uma pintura de Frida Kahlo! daquelas superelaboradas e confusas e esquisitas e estranhas. e como tal difícil de entender, viver... ah, mas garanto na parte que me toca, que me toca lá dentro, que me faz feridas e calos. senta aqui, que hoje eu quero te falar sobre suas listras. ah, suas listras... me da um abraço, pô! e ela queria falar tanto, tanto, um bocado. queria falar sobre ela estar lá, isso não era para ter acontecido, não estava nos planos. e eles estavam em outro plano, nuance tunt tunt. lógico que, romântica amadora que é, ao som de los barbudos tudo fica mais mais. mas muito mais alucinante ao som tunt tunt. delícia. até o palaço com chuva que andava atrás deles com o esqueleto do guarda-chuva e que não dava a mão e mesmo assim não se perdia, uma hora se afastou. isso é realmente relevante. nessa hora ela entendeu que talvez as mãos dadas fossem outro tipo de necessidade quenão a de não se perderem, a de saberem-se. sempre achei mão dada uma coisa tão íntima que nem sei... nem paro pra pensar, é melhor. deram um abraço, caras de batom e tchau.

ele não vai na festa do los barbudos? mas como não? e o elefantinho? cabelinho na cara? listras? e o batom borrado? me diz, cadê você ai? e ela tinha que estar lá. um troço quase profissional, carteira assinada. quase quase espiritual. aniversário, sabe? mas sem saber por onde, ela entra no carro e vai pro bar. ela trocou los barbudos por um bar, por rabo de galo. pelo lirismo bêbado que se pensa épico. ela entra no carro e vai pro bar. ela traiu los barbudos. trocou o clichê de escutar essa estória cantada e não ter nem sequer um par pra dividir. trocou ausência, pra ir no bar e ver, ter presença. o que ela não sabia é que mesmo assim não há sequer um par pra dividir. presença, mesmo que distante, silenciosa. mesmo que te matando surdamente -ainda assim presença. daí carona e um beijo. beijo pedido que ela pediu. ele não deixa nem roubar... vergonha grau 19. e, ah, mais silêncio e silêncio e silêncio e isso me deixa jururu pra caramba. e mais bar, mais rabo de galo, mais silêncio, mais silêncio, mais carona, mais rua que tantofaz, mais beijo, mais mais. e ele até relou nela... pena que estava bêbada. ou pena que ele não estava. depois eles até cantaram los barbudos, ela no ovinho e ele no violão. e mais nada, nadinha mais. ela bem que tentou, mas desejou morrer depois. eu disse que ele não deixa roubar. mesmo assim ela tentou. e não. e NÃO! ele não quer viver as coisas com você. e agora ela tem medo dele. poxa, custa falar direito? você ta assustando ela, cara! às vezes ela parece forte, mas, ah, se assusta fácil fácil... sabe, conversar pode ser um jeito de defender um jeitinho ou timidez de interpretações idiotas, por pessoas idiotas. mas se ele não diz ela não pode saber. então ela inventa, pois que se é no não que se descobre de verdade, o que me sobra além das coisas casuais? e salve salve a internet que mente muito e nos faz ouvir '80ção, 20ver' e nos abriga a dizer '100essa! 70menganar mas não consegue'. essa é a comunicação defensiva: use-a ou morra por engano. e além disso faz passar vergonha por repetir assuntos tópicos na falta deles e ter que usar o hipotiroidismo como desculpa pela falha da memória. vergonha grau 25. vida longa à internet, viva! e ontem teve show do los barbudos e o nome dele tava na lista. chique, eu sei. eu disse que o lance era quase profissional, carteira assinada, coisa e tal, curicutri. eu mando. e mesmo assim ele não foi. ta certo que nem sabia que tava na lista... mas não foi. e eu até que esperei um tico... hey, senta aqui, espera que eu não terminei. pra onde é que você foi que eu não te vejo mais? e sabe quando termina a música e o barbudo diz aquilo, sabe? aquela parte do achando que sofrer é a amar demais? mas não é demais. é amar um pouco. basta uma noite, uma mão. basta um silêncio foda. isso basta para ficar jururu pra caralho. me diz se assim está em paz? porque eu não to. não fico. não sem um abraço de 'tá bom, tá tudo bem'. e ele não vai mais nos shows, mas ela continua pulando pulando com seu all star detonado. até que alguém a ponha no chão. até.
, mas não esqueceram o que ela não conseguia lembrar: que quando é para ser, é pra ser. parece filosofia de bar, fato, mas fato também que é assim. e por que não a filosofia de bar? o lirismo dos bêbados que ela tanto ama? fantasmas assombravam seus pensamentos apaixonados, mas essas coisas acontecem sem pensar então pensamentos eram meros pensamentos e quando você nota está beijando alguém. alguém não: o menino que combinava com ela no início da estória. pelo menos isso era o que todo mundo achava e até o que eles achavam antes do primeiro beijo. beijo esquisito. poderia ter sido o último de tão ruim, mas não foi. ela comentou que não encaixava e eles foram dirigir, coisas banais e tal. ela quase bate o carro e mais alguns beijos. ele chamava ela de ‘amor’ e ela odiava, morria de medo do amor bobo, do amor quase carente, mal sabia que esse era seu fardo... eles não se suportavam mais. tudo, como o beijo, era incompatível, uma incompatibilidade que não tinha a beleza de Eduardo e Mônica. eles não se completavam, eles se torturavam tentando beijar, mas foi inútil. ele até algumas vezes resmungou bem baixinho a palavra namoro, mas ela não acreditava, não podia ser verdade. ela nunca vai saber... fingiu então que foi tão baixinho que ela não conseguiu escutar. disse, sem delongas, que o beijo não dava certo e que não poderiam ficar mais juntos. ele continuou a rotina sem ela e ela parou com a sua e sofreu, sofreu, sofreu muito por um lá, um outro lá que não vale a pena mencionar. ele já foi merecedor de muitas historinhas. daí o tempo passou e essas outras historinhas foram a grande sacada da vida dela. o tempo passou mais e ela foi experimentando bocas e mais bocas. mas daí o tempo passou mais ainda e, ah, como a vida é engraçada: deu vontade de beijo esquisito. ela não queria novas bocas, queria novos beijos! e lá foi ela tentar. ela sempre achou que quando uma pessoa pensa em outra a outra também ta pensando na primeira, mas ela tava enganada. era muito mimada para aceitar que alguém não pensava nela então sempre corria para suas fantasias. ele não pensava nela, mas ela não desistiu. ligou, entrou, parou o carro. era um lugar perigoso, mas ela não tinha medo. alguma coisa a enchia de coragem, talvez fosse vontade de beijo esquisito e ver que talvez pudessem rir daquilo. e ver que talvez pudessem rir daquilo. quando se contorna uma situação assim com humor cria-se laços, laços não de fibras, mas de perfumes. laços que não enforcam. ela nunca tinha ido ao quarto dele. olhou cada detalhe, procurava algo que denunciasse alguma fraqueza, algo para o cheque-mate. e não encontrou nada. a ausência era gritante. e nada podia ser mais perfeito. deitaram na cama que outras deitaram ao som de Pink Floyd. ela deitou nele e ele ia apresentar estrela por estrela para ela. ela queria muito, queria muito, muito ouvir, mas tinha medo de ser só mais uma e pediu para que ele pulasse essa parte. a volúpia nem era grande a ponto de. ela sabia a importância da troca, sabia a importância de deitar no colo e contar estrelas, mas tinha medo, muito medo, então se defendia, não queria se render ao que todas se renderam. mas sem saber se rendeu e alí deixou que a tocasse como nunca. mas ainda assim tinha que controlar e nunca contaria que era sua primeira noite assim. nunca. voltou para casa e chorou muito, sentia muita dor e queria um abraço. ninguém para conversar. era muita dor. passava da carne para algum lugar e ia doendo. ela fingia que tava tudo bem, nunca imaginou que roupas espalhadas pelo chão significassem tanto, tanto. um bocado mais que ‘roupas espalhadas pelo chão’ e esporte. ela disse para ele que se um dia estivesse gostando ele não ia saber, mas ele ia. o que ela não sabia é que isso não muda nada. se ela soubesse teria contado antes. ou não teria contado. passou mais tempo e parece que um pedaçinho dela ta lá com ele. um pedaçinho pequenino, ela quer de volta, mas ele foge, sai correndo. ela vai atrás. entram num labirinto. ou melhor, ela entra. ele só fica rindo, inflando o ego, olhando ela se embolar nas próprias fitas que ele recusou. fazer nós. laços sem beleza. laços que, sim, enforcam. ela corria atrás de um pedaço e ia perdendo outros. já não sabia mais se valia a pena correr atrás de uma parte enquanto está perdendo todas. enquanto já se perdeu inteira. ela não sabe mais porque corre e nem ele porque foge. mas ela só queria que ele soubesse... e agora ele sabe. e continua tudo igual como se nada tivesse acontecido. ele vai fazer shows e ela não dança com seu All Star detonado. ela só queria que esse amor, ou qualquer coisa que seja, tivesse a beleza das flores sem perfume, a inocência de Eduardo e Mônica. e quer saber? tem. quem um dia irá dizer que existe razão para as coisas feitas pelo coração? e quem irá dizer que não existe razão? ninguém vai. e isso não vai passar de palavra escrita em papel, frase desconexa, bilhete esquecido dentro daquele último livro empoeirado da última prateleira empoeirada. e ela nem sabe mais porque escreveu essa carta, mas sabe que nada é tão ruim a ponto de não ser dito. acende um cigarro, dá um sorrisinho e sai da sala escondendo, não sei de quem, seus olhinhos pretinhos uma útima vez molhados de sal.